In memorian

O músico americano Solomon Burke, conhecido como o ‘rei do rock and soul’ e autor de sucessos como “Cry to me” e “It must be love”, morreu neste domingo, aos 70 anos, no aeroporto de Schiphol, em Amsterdã (Holanda). Burke faleceu por causas ainda desconhecidas logo após desembarcar de um voo procedente de Los Angeles (EUA).

Burke é considerado um dos “pais” do soul junto com Ray Charles e Sam Cooke desde os anos 50, época na qual os três músicos transgrediram as regras que separavam o gospel do R&B. Após seu clássico “Tonight’s the night”, compôs em 1964 “Everybody Needs Somebody to Love”, hit que foi também interpretado por Rolling Stones, Wilson Pickett e The Blues Brothers, entre outros.

O músico americano deixa um legado musical de 35 álbuns e mais de 17 milhões de cópias vendidas. Um de seus maiores “admiradores” foi o papa João Paulo II, que o convidou a visitá-lo no Vaticano em várias ocasiões.

Burke tinha 21 filhos, 90 netos e 19 bisnetos, segundo seu site oficial.

Com informações da Agencia EFE

‘Não vou mais nessa estrada’

Em 1989 Lulu Santos pariu Popsambalanço e Outras levadas, disco que fazia a equalização do emaranhado de referências do músico, sempre atento às ondas sonoras interferindo em sua antena parabólica. Além das levadas explícitas no RG do álbum, aquele era um disco sobretudo de alma funk, ‘body and soul’.

“Incompreendido”, “subestimado”, “à frente de seu tempo”, “pretencioso” e um tanto mais foi usado para descrevê-lo. Fato é que o disco não aconteceu. Demolidor em potencial, ficou em ponto-morto, no estéril terreno do ‘quase’. Hoje, olhando em perspectiva, até se poderia enxergar algo premonitório no release assinado pelo antropólogo Hermano Vianna – um ser que pensa e conhece (por dentro) as entranhas da música contemporânea brasileira.

Dizia ele:

Ser pop é gostar do mundo e da descartabilidade do real. Ser pop é destruir as hierarquias que separam o raro do vulgar, o original da cópia, o eterno do transitório. Fazer música pop é inventar um lugar-comum-ideal, isento de negatividade, capaz de seduzir (por um breve tempo, mas intensamente) o maior número de ouvintes.

Recapitulando: o compositor pop trabalha assumidamente com o lugar-comum, remanejando conhecidos elementos melódicos, harmônicos e rítmicos. Sua mágica é a conexão instantânea que às vezes liga o “novo” lugar-comum e o desejo do público. Tudo tem que ser feito na hora certa. No reino pop a figura do gênio incompreendido, aguardando o julgamento da história, é patética e desnecessária.

No Brasil, é dificílimo encontrar um pensamento sintonizado com o fenômeno pop, capaz de relativizar seus preconceitos diante da arte que a massa gosta ou, o que seria mais sensato, capaz de não ter preconceitos diante da arte que a massa gosta. Os críticos se consideram donos da verdade e do bom gosto. Quem não gosta daquilo que eles gostam está sendo manipulado pela indústria cultural.

‘Meio diferente de hoje em dia’

E, assim, Popsambalanço e Outras levadas foi posto de volta ao escaninho, e por lá ficou, escondido, empoeirado, sem cuidado, por longos 20 anos. O tempo passa rápido e a tal metáfora do vinho que fica melhor ao envelhecer não cabe aqui, por desnecessária.

Corta para 2009. Zilhões de beats e encruzilhadas musicais depois, a decisão de Ivete Sangalo de incluir ‘Brumário’ em seu despojado projeto ‘Pode entrar’ joga, novamente, luz sobre o rejeitado álbum. E traz consigo a sensação de incompreensão, e de querer outra vez o que não se teve antes.

Mas eis que, aos 46 do segundo tempo das comemorações de duas décadas de Popsambalanço, Lulu pôs na praça ‘Singular’ (em dezembro de 2009). Com ele, o ‘rei do pop’ fez uma caminhada nostálgica em direção ao ponto que, talvez, seja próximo àquele que startou a feitura do álbum de 89. Ele voltou, ressalte-se, por caminhos já trilhados e, por isso, a sensação de dejá vù causou certo desconforto de início.

‘E eu nem imaginava…’

Fosse um LP, a cacetada pegadora teria sido dada na última música do ‘lado A’. Eletrificada na potência 9 e com uma batida quase marcial, ‘Atropelada’ é um susto sem referências, uma espécie de grito na noite da alma (olha ela aí novamente). Lulu fez e refez tudo certo ali. Mas atrapalhou a evolução das faixas restantes. Com medo da indefinição, o repeat travou. Dezenas de audições depois, a declaração do autor de ‘A coisa certa’ dava um Norte: “É das mais gratas e surpreendentes revelações artísticas que tive nos últimos tempos…”. O alvo dos elogios era Jorge Ailton, autor de ‘Atropelada’ em parceria com Apoena Frota.

A curiosidade acabou por desaguar em O Ano 1, álbum de estréia de Ailton. Lá, as referências da soul music e, por que não?, do funk, estão ainda mais entranhadas, curtidas, marcadas em cada sulco. Cassiano é uma espécie de eminência parda. Que dúvida (ou medo) não deve dar a um autor ver sua canção sendo moldada por um ouríves como Lulu Santos. O que fazer depois, quando seu próprio processo ainda está em andamento, e seu primeiro disco ainda em fase de montagem?

Ouvir a ‘Atropelada’ de Jorge Ailton, na voz do próprio, é ver as dúvidas do último parágrafo dissipadas. O dilaceramento contido ali é resultado de outras mágoas, outras dores, tão profundas ou intensas quanto as de Lulu, mas outras. Versões díspares e igualmente belas. Nos dois casos, a canção vale os discos de ambos, e estão à altura deles.

A beleza comovente de ‘Atropelada’ (quase uma obsessão) está refletida tanto em Singular (Lulu Santos) quanto em O Ano 1 (Jorge Ailton). Mas ela é, ainda mais, um brinde à chegada deste segundo ao cenário da música brasileira. Talvez sem saber, talvez plenamente consciente, Jorge Ailton construiu um álbum que, por vias tortuosas, seja algo que não seria possível sem existência de Popsambalanço e Outras levadas.

Da mesma maneira, só que em sentido contrário na rodovia de influências indiretas, a inclusão de sua canção em ‘Singular’ poderia ser um reconhecimento e homenagem a isso. O que tornaria tudo ainda mais bonito (e também sofrido).

*Falar de dois discos ‘novos’ tendo como base uma única canção e um outro disco, feito há 20 anos, é uma não-resenha, ok. Mas quem quiser tirar a prova dos nove, o show de lançamento de O Ano 1 acontece nessa quinta-feira, 13 de maio, no restaurante Zozô, na Urca, a partir das 22h. Bons sons.


Atropelada (Jorge Ailton – Apoena)

Cortando caminho falando sozinho na beira da estrada
Me pego fugindo, não sei, de mim mesmo nessa madrugada
O tempo me larga, me esquece, me deixa…
É só mais um

E eu nem imaginava
Que seria ao som de “Body and Soul”
Que lenta, distante e mesmo atropelada
Cantava assim

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Correndo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz

As pernas me levam, pessoas rodeiam,cabeça pesada
E a minha garganta reclama que quer alguma coisa gelada
Que tire da minha cabeça essa frase arranhada
Foi sem querer

Ouvindo besteira saindo da boca de qualquer mimada
Me apoio na mesa olhando pra baixo sem chão, sem nada
No fundo o refrão de uma dessas me engana de cara lavada
Tá tudo bem

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Correndo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz

E eu nem imaginava
Que seria ao som de “Body and Soul”
Que lenta, distante e mesmo atropelada
Cantava assim

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Vendo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz
Então me deixa deixa em paz
Então me deixa em paz