(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.

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‘Não sou mau com as mulheres’

“É uma louca, uma devassa. Já veio aqui, ficou gritando aqui embaixo o meu nome. Imagina, nessa rua super silensiosa! É maluca, mas é um espetáculo, um mulherão, cachorra demais. Até escrevi uma coisa sobre isso. Peraí, que eu vou te mostrar. Tu vai curtir”.

Ele foi lá e pegou um calhamaço de folhas impressas e com alguns rabiscos. E disse: “Lê aí as primeiras páginas”. Começava mais ou menos assim:

Não sou mau com as mulheres.
Beijo, lambo, mordo, xingo, aperto, meto, puxo os cabelos e dou muito tapa.
Gosto de bater.
Bato na bunda.
Bato com o pau.
Gosto de amarrá-las na cama.
Mas se sou desse jeito, é porque elas me querem assim.
E as mulheres que não querem, não me interessam.
São as mulheres certinhas, comportadas, recatadas.
Mulheres fiéis que casaram virgens e têm medo do orgasmo.
Fiéis aos maridos e infiéis a si próprias.
Aliás, muitas nunca gozaram mesmo.
Fingem que gozam, como as putas fazem, para não criar problemas.
Perfeitas infelizes.
São indiferentes ao pênis, ou quase isso.

A verdade é que não lembro se o trecho era o mesmo reproduzido acima, mas algum tempo depois descobri que as folhas lidas no apartamento da pacata rua do Jardim Botânico integravam o primeiro romance de Zeca Fonseca, O Adorador. (Zeca já foi personagem do post 9 milímetros)

Honra das grandes essa, de ter sido um leitor privilegiado; ter nas mãos o texto ainda em fase de preparo. Não me lembro se agradeci a ele quando rabiscou meu nome, junto à dedicatória, no dia do lançamento, em junho de 2007.

Três anos depois, O Adorador ganha sua versão virtual, com o lançamento marcado para esta quarta-feira, 16 de junho, na livraria Blooks (no Unibanco Artplex), na Praia de Botafogo. A brincadeira é uma pechincha: só R$ 7,90.

Va lá!