Relatos do front

Por Moskow*

O som de um tiro é algo assustador. Assustador e bizarramente curioso, instigante para alguns. O eco seco dum tiro de fuzil, distante alguns centímetro de onde você está, arrebenta com as emoções, desfaz paradigmas, confunde a razão, dá medo, faz tremer, pular do chão, no reflexo da surpresa (desagradável) de mais um apertar de gatilho.

Jornalista de editorias como geral e polícia tem gostos no mínimo estranhos.

Na sexta-feira, primeiro dia da presença da nossa equipe (um repórter fotográfico, outro cinematográfico e o de texto) nos arredores do Alemão e Vila Cruzeiro, havia no ar um clima pleno de tensão. Os rostos transbordavam a aparência do terror e do não saber o que poderia acontecer a cada segundo seguinte. As buscas por informações. Qualquer informação era constante. Aliada a isto, a tarefa de buscar proteção física contra possíveis confrontos entre bandidos e policiais.

Quando chego no local de uma pauta preciso, primeiro, sentir o ar. Entender o que estou fazendo ali, pra que estou ali. Pra que essa equação tenha alguma possibilidade de ser resolvida, procuro as respostas no ser humano. Mesmo que este indivíduo não esteja tão presente fisicamente, a sua não presença também faz transparecer a realidade dos fatos. Naqueles dias de final de semana, a ausência da população nas ruas era a senha para o trabalho. A movimentação frenética das forças policiais, a imponência de seus equipamentos, prontos a intimidar o inimigo, gerava em mim um misto de alegria (sim, alegria) em ter cenários estéticos absurdamente ricos a serem fotografados, documentados. Apreensão pelas idéias do que aquilo tudo ali poderia resultar. Algum medo, que considero um dos sentimentos necessários para cobrir essas pautas. Sem ele, a vulnerabilidade da nossa integridade é ainda maior. Repórter de polícia tem um “Q” de ousadia que pode beirar ou ultrapassar a irresponsabilidade. Outro sentimento que martelava como se fosse uma marreta das pesadas, na cabeça, era o de compaixão com o cidadão que é quase que obrigado a viver naquele território.

Foto: Moskow

O pensamento repetia na minha cachola: _ Tá tudo errado, mas preciso levar fé de que este conjunto de ações são as ferramentas necessárias e corretas para reverter uma infinidade de equívocos (des)tratados com covardia e descaso por todos nós.

Ali naquela pré aparente guerra a responsabilidade pelo que houve na cidade até então era de todo mundo. Minha, sua que lê, das autoridades, dos marginais, moradores… Todos. Todos culpados e vítimas uns dos outros.

De tempo em tempo as coisas pareciam crescer numa proporção inimaginável. O aparato bélico imposto pelo governo, curiosamente, não assustava, mas trazia a maioria uma sensação de liberdade de ser, ir, vir. De retomada da ordem. Parecia que, sei lá, de alguma forma todo mundo gritava mentalmente “obrigado governador, obrigado polícias, obrigado autoridades. Venham e façam a população dormir em paz.”

Pro Cabral, sem qualquer sombra de dúvida, este foi o maior ato eleitoral da vida dele. Não havia NINGUÉM naquelas bandas que apontasse contra o governador e suas atitudes. Até a imprensa aplaudia e colocava louros em sua glória.

No início da noite de sexta circulou a informação de que a ocupação do Alemão começaria no sábado às 8h.

Naquele sábado de muito calor e sol seguimos cedo pro chamado Complexo. Na porta do 16º Batalhão da PM, a movimentação parecida com a do dia anterior não indicava, nas entrelinhas da cobertura e da percepção, nenhuma ação mais rude das forças “de paz” dos governos legais. Enquanto as informações eram constantemente buscadas, fazíamos personagens. Pessoas comuns que circulavam por li. Uma senhorinha que abraçava e desejava boa sorte aos soldados da marinha, enfileirados próximos a tanques de guerra. Um ex-combatente que fotografava aquele inusitado cotidiano, as crianças que acordaram mais cedo naquele final de semana, acompanhadas por seus pais, que tiravam fotos dos pimpolhos juntos a soldados, policiais, armamentos, viaturas de combate.

Num determinado momento daquela manhã, quase na hora (convencional) do almoço, já cansado de fotografar tanta ambigüidade de criança pendurada em caveirão, papai sorridente e soldado com ar de herói, parei num canto e só observei. Nesse momento era só o Alexander Nazario Moschkowich. Moskow entrou numa breve folga. Queria entender mais. Queria tirar minhas dúvidas, queria acreditar que aquela porra toda fazia algum sentido e era verdadeiro. O que concluí foi que naquela farofada toda os pais diziam, em silêncio, aos filhos:

_ Olha filhão! Esse moço todo fardado, cheio de armas e equipamentos pelo corpo, sofrendo horrores com esse calorão, veio aqui pra salvar a gente do mal. Eles são heróis que papai jamais conheceu fora dos quadrinhos dos gibis que lia quando tinha a sua idade.

_ Sabe filhão, esse outro moço que tirou uma foto sua, veio aqui pra mostrar pro mundo inteiro que nós também somos gente, que teremos a partir de agora algum (embora pouco ainda) direito como cidadão que rala pra caralho pra levar arroz e – quando dá – feijão pra casa.

_ Daqui a alguns dias, meu filho, você vai poder brincar a vontade na rua com seu amiguinho. Sem que eu, sua mãe ou você mesmo tenha a preocupação de que vai morrer por um tiro “perdido”. Que aqueles caras que circulam por aqui com um monte de fuzil na mão, não vão mais nos incomodar. Que você, apesar da educação de merda que tem na escola e na vida, não vai mais querer ser um desses que calçam, até a breve data das suas mortes, chinelo de dedo, bermuda, camiseta e um boné mal acomodado na cabeça. Você vai querer ser um desses bravos soldados “da paz” que estão aqui lhe abraçando a sorrindo pra você.

_ Vamos tirar bastante fotos pra daqui há uns vinte anos a gente olhar no computador e lembrar que seu amigo policial, que fará um churrasco com você no final de semana, não morreu no meio da sua história, como morreram vários amiguinhos do papai, quando tinha sua idade.

Sem hipocrisia, era isso.

Sábado, tarde

A retomada do Alemão, como estava supostamente prevista, não aconteceu. Foi só mais um dia de um calor infernal, de preparativos e ansiedades. O Dia “D” tinha ficado para o domingo.

Domingo, manhã bem cedo, 6h.

Na Quinta da Boa Vista, onde a polícia civil se concentrou para a guerra, a euforia e clima de combate e vitória do que há de bom contra os inimigos da sociedade era plenamente visível. A moral daqueles guerreiros de preto tava lá nas alturas. Fizemos umas imagens, nosso repórter apurou algumas boas informações, vestimos nossos coletes a prova de balas, preparamos todos os equipamentos e partimos para o Alemão.

Chegamos lá por volta das 7h. Confesso que estava muito tenso, mas ao mesmo tempo com uma vontade filha da puta de que houvesse mesmo vitória. A sociedade toda temia um mar de sangue naquele dia. E o que eu queria mesmo e botava fé nos “poliça” era que matassem 100% da bandidagem. Essa vontade não era só minha, não. Todo mundo queria mesmo era ver a vagabundagem na vala. Todo mundo queria se banhar no vermelho sangue do inimigo.

Como poucas vezes faço na vida, assim que cheguei na rua Itararé, rezei a algum deus (ou deuses. Tanto faz e não importa quem sejam eles). Antes do rápido desembarque do carro (porque o tiro do lado de fora já tava comendo solto): _ Que todas as boas energias do universo proteja a mim, minha equipe, aos profissionais de imprensa. Que os policiais possam voltar todo pra casa e que a população não sofra nada nessa encrenca que nos metemos.

Abri a porta do carro a já corri pra trás de um muro de esquina pra me proteger dos tiros. Na guerra, você ouve o barulho, mas projétil não tem sinalização. Você não sabe de onde vem. Dois dias antes deste domingo, um tiro de fuzil atravessou das costas pra barriga de um morador que estava há uns 100m distante de mim.

Ah, sim, esqueci de dizer que a zona norte naquela 7h da manhã era uma cidade fantasma. NINGUÉM ousava botar a cara na rua além dos diretamente envolvidos na cobertura daquele evento.

Frenéticos, carros de combate de todo tipo (camburões da PM, Civil, federal; tanques de guerra, caveirões, motocicletas da PM, jipes do exército carregados de combatentes…) corriam de lado a outro.

A gente (eu, o cinegrafista e repórter) precisava avançar algumas quadras pra dentro da guerra. Estávamos distantes dos fatos. Havia no mesmo lugar algumas outras equipes de imprensa que também planejavam com a gente o avanço no território de conflito. Uma dessas equipes, de jornalistas estrangeiros, precisou escutar alguns gritos (esporro mesmo) de coleguinhas pra saírem da linha de tiro, na calcada onde a gente estava. Fato que mais tarde se revelou uma rotina. Muitos jornalistas sem experiência nesse tipo de trabalho, arriscando suas vidas perambulando em lugares vulneráveis.

Combinamos de avançar até um bar, distante uns 40m a frente, de onde um grupo de PMs que atiravam em direção ao morro oposto ao que a gente estava. A gente queria garantir aquelas imagens.

_ No “3” a gente vai. Vai vc primeiro Juninho (cinegrafista), depois Moskow e eu vou no final, acertou nosso repórter.

Corremos rente as paredes das lojas, corpos curvados. Entramos no bar na velocidade de uma rajada. O PM ancorado atrás de uma geladeira de cervejas, posta na entrada do bar solta seu verbo bélico. PQP! Não lembrava mais como era uma porra de um tiro de fuzil a 2m de distancia. Quiquei tão alto que bobear batia no teto do bar.

_ Tá com seu protetor de ouvido aí, Moskow? Pergunta o repórter.

_ Porra, não. Tirei da bolsa pra arrumar as coisas e esqueci de colocar de volta.

POW, POW!
Mais uma seqüência de tiros que faziam um barulho que parecia explodir o quarteirão inteiro.

Foto: Moskow

Um homem gordinho vindo do interior do estado, que também se abrigava no interior do estabelecimento estava eufórico com a guerra. Queria saber de tudo. Como funcionava aquela engrenagem de batalha. Não aparentava nenhum medo. Mas alegria em vivenciar de pertinho um troço daqueles. Fazia perguntas escrotas que iam me irritando a cada segundo. Segundos estes que mais parecem eternidades.

No auge da sua postura sem noção, o idiota vai até a porta do bar, aprecia o soldado disparar um tiro. Ao mesmo tempo que se arriscava ali, atrapalhava o meu trabalho e do cinegrafista. Um tiro vindo lá de fora foi a gota d’ água pra minha paciência terminar:

_ Porra, caralho, tá maluco, essa porra não é filme não, porra. Sai daí, vai lá pro fundo. Quer morrer, caralho!

Uma pausa no tiroteio, reforço militar chegando ao local. Era hora da gente avançar mais. A esta altura a Itararé era toda das “forças de paz”. Parecia que a polícia do mundo inteiro estava ali. Prontos pra vencer. A palavra “aliado” nunca me pareceu tão coerente, tão viva. Ali corria nitidamente um ar de um por todos e todos contra os vagabundos.

Aproximadamente 7h40 começou de verdade.

Os helicópteros chegaram pelo alto, largando o aço, tocando o terror. Por baixo, nas ladeiras de acesso a favela, caveirão, tanque de guerra e força policial invadia. Entendi que dali pra frente não tinha mais volta. Não tinha espaço pra equivoco, pra erro. Adrenalina a mil por hora. Subimos com as tropas da Civil pela ladeira próxima à rua Joaquim Queiroz. Não lembro o nome da rua.

A gente, um caveirão e um tanque de guerra. Depois vinha polícia pra caralho e imprensa. Logo na primeira curva a esquerda, o caveirão empacou antes de uma barricada feita pelo tráfico. Minutos de tensão de como seguir em frente. A solução simples veio com as táticas de guerra. Simples assim, o tanque de guerra, lotado de policiais no seu interior, empurrou tudo que tinha a frente. Caveirão, barris cheios de concreto, trilho de trem fincado no chão. Parecia tudo papel. A força daquela máquina de guerra deixou todo mundo, que participava daquele caos, abismado com tamanha potência.

Seguimos até o alto, no pé de uma das várias estações do teleférico, que promete ser uma das vantagens do PAC para a população no Alemão. A autoridade tomou o morro, fez uma série de apreensões volumosas, deteve muitos suspeitos e seguiu a ocupação por todo o dia.

Sob um calor desesperador daquele dia, continuamos nossa função. Indo e vindo prum lado e outro, buscando documentar e reportar a História de uma cidade. Quando as informações lá do alto não tinham mais tanta relevância pruma equipe de reportagem, descemos novamente para a Itararé. Na descida da ladeira degustamos o delicioso sacolé de coco da Dona Julita, moradora e testemunha de muitos anos de causos daquele lugar.

Documentamos estouro de casas de chefes do tráfico, apreensões de muitas armas e drogas, prisões de bandidos. O almoço, já pro fim da tarde, ficou restrito a promoções “peça pelo número” trazidas pelo nosso motorista até a zona de conflito. Engolimos coca cola quente e sanduíches de borracha sob a lataria fervida do carro, em alguns poucos segundos.

Naquele dia o momento de arrepio e a recarga do sentimento de coisa boa ficou por conta da CORE, no alto de uma estação do teleférico. Um helicóptero trouxe até a torre a bandeira do estado do RJ, que foi hasteada junto à brasileira, no pico daquela imensa favela.

Enfileirados lá no alto, há uns 20 metros do lugar onde o helicóptero plainou para a entrega da bandeira, os fotógrafos e cinegrafistas deixavam escapulir as observações sobre o que viam e documentavam:

_ Porra, que maneiro!

_ Emocionante!

_ Que isso, cara! Muito foda!

Um arrepio que custou a passar. Aquilo foi realmente bonito,  Histórico, emocionante e cheio de significados pra todo mundo.

Esfriando o clima, vem chegando aos ouvidos, trazidos pela poeira densa dos boatos, os desencontros de verdades, de atos questionáveis por parte daqueles que ali estão para levar harmonia e muitas dúvidas. A cada resposta dada na vida, um caminhão de dúvidas nos é entregue.

Foto: Moskow

Não vi (não mesmo) nenhuma atitude truculenta, questionável ou que atentasse contra qualquer bem, vinda das autoridades. Acreditar é a palavra que me resta e creio.

Acreditar que o Ser Humano, no ápice de crises que apontam o próprio Ser Humano bom como alvo, é solidário e unido na vontade de salvar a espécie.

* Moskow é fotógrafo especial.

Quando recebi o texto acima, pedi autorização ao Moskow para publicá-lo aqui, mais ou menos com o seguinte argumento: – Isso deveria ser obrigatório nas escolas de comunicação: ensinar os repórteres a relatarem suas experiências, ensiná-los a ‘ver e entender’ o que estão vivendo. Ter esse tipo de percepção é o que faz a diferença. Isso está muito além do ‘eu estava lá’ do reportariado deslumbrado – o que inclui novatos e veteranos. Parabéns!

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Outro baião

Baião da Penha
(Luiz Gonzaga)

Demonstrando a minha fé
Vou subir a Penha a pé
Pra fazer minha oração
Vou pedir à padroeira
Numa prece verdadeira
Que proteja o meu baião

Penha, Penha
Eu vim aqui me ajoelhar
Venha, Venha
Trazer paz para o meu lar

Nossa senhora da Penha
Minha voz talvez não tenha
O poder de te exaltar
Mas dê benção padroeira
Pra essa gente brasileira
Que quer paz pra trabalhar

Penha, Penha
Eu vim aqui me ajoelhar
Venha, Venha
Trazer paz para o meu lar